sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Tempo.

   Já foi dito que os dias decisivos são os ventados. E o são. O vento vai arrastando tudo: A dor, a mágoa, a alegria. O tempo, amigo do vento, é impiedoso com a felicidade: Ao passo que leva uma tristeza por vez, leva dez felicidades ao mesmo tempo. O tempo não só cala os gritos de dor: Emudece os risos. Não só se cria rugas e olhos cansados: Momentos felizes vão seguindo, sem dó.

   Num ritmo desconsertante, vão-se os fios de cabelo, as espinhas, os cravos. As vaidades se tornam, de fato,  vãs: O que é uma espinha pra quem as ruas já tomaram lugar? Vão- se também amores, retratos. Noites insones são transformadas em arrependimentos, a saudade se toma conta. Alias, a saudade. Saudade amiga do tic-tac do relógio. Saudade amiga da solidão. Saudade irmã do tempo.

     E eis que num dia somos sucumbidos a notar que o vento já passou, já levou tudo. Já transportou. E por pedaços, como esse texto. Relembrando trechos que já foram ditos, escritos. Omitindo outros. E vai, transportando. É impossível nadar no mesmo rio e é impossível respirar o mesmo vento por duas vezes. Porque já se foi transportado. Já se foi dito. Já se foi repetido. E, como esse texto, sem muito sentido.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Sobre o tempo e o vento.

Os dias ventados são aqueles que anunciam dores ou sorrisos. O vento anuncia tudo, traz tudo.

   Minha avó não estudou. E não estudou porque não quis, foi obrigada. Sim, foi obrigada a não estudar. Por um pai machista, que dizia que filha lendo só servia pra mandar carta pro namorado. E cresceu com essa amargura, não saber ler. Mas o vento veio, e levou consigo vários anos. Então, minha avó descobriu o amor. E veio como um amor de verdade sempre vem: Sem regras, sem fórmulas. Veio. Mas minha avó era analfabeta, feirante. Não tinha sequer uma cadeira pra sentar, na sala de casa.
    Eis que o vento trouxe uma surpresa: O amor de minha avó, sabendo que ela era analfabeta, pagava pra uma carro cantasse em sua barraca da feira. E então, era bonito sonhar. Era possível. Mas, entre o sonho e o real, minha avó escolheu o real. Casou-se com meu avô. Homem simples, do campo. Simples igual a ela. Seu igual. E veio o tempo, o vento. O amor não se apagou.

   Esse texto não era sobre mim. Mas, nunca escrevi algo tão meu.