quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Sobre o tempo e o vento.

Os dias ventados são aqueles que anunciam dores ou sorrisos. O vento anuncia tudo, traz tudo.

   Minha avó não estudou. E não estudou porque não quis, foi obrigada. Sim, foi obrigada a não estudar. Por um pai machista, que dizia que filha lendo só servia pra mandar carta pro namorado. E cresceu com essa amargura, não saber ler. Mas o vento veio, e levou consigo vários anos. Então, minha avó descobriu o amor. E veio como um amor de verdade sempre vem: Sem regras, sem fórmulas. Veio. Mas minha avó era analfabeta, feirante. Não tinha sequer uma cadeira pra sentar, na sala de casa.
    Eis que o vento trouxe uma surpresa: O amor de minha avó, sabendo que ela era analfabeta, pagava pra uma carro cantasse em sua barraca da feira. E então, era bonito sonhar. Era possível. Mas, entre o sonho e o real, minha avó escolheu o real. Casou-se com meu avô. Homem simples, do campo. Simples igual a ela. Seu igual. E veio o tempo, o vento. O amor não se apagou.

   Esse texto não era sobre mim. Mas, nunca escrevi algo tão meu.