sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Tempo.

   Já foi dito que os dias decisivos são os ventados. E o são. O vento vai arrastando tudo: A dor, a mágoa, a alegria. O tempo, amigo do vento, é impiedoso com a felicidade: Ao passo que leva uma tristeza por vez, leva dez felicidades ao mesmo tempo. O tempo não só cala os gritos de dor: Emudece os risos. Não só se cria rugas e olhos cansados: Momentos felizes vão seguindo, sem dó.

   Num ritmo desconsertante, vão-se os fios de cabelo, as espinhas, os cravos. As vaidades se tornam, de fato,  vãs: O que é uma espinha pra quem as ruas já tomaram lugar? Vão- se também amores, retratos. Noites insones são transformadas em arrependimentos, a saudade se toma conta. Alias, a saudade. Saudade amiga do tic-tac do relógio. Saudade amiga da solidão. Saudade irmã do tempo.

     E eis que num dia somos sucumbidos a notar que o vento já passou, já levou tudo. Já transportou. E por pedaços, como esse texto. Relembrando trechos que já foram ditos, escritos. Omitindo outros. E vai, transportando. É impossível nadar no mesmo rio e é impossível respirar o mesmo vento por duas vezes. Porque já se foi transportado. Já se foi dito. Já se foi repetido. E, como esse texto, sem muito sentido.