domingo, 26 de julho de 2020

Carta ao meu eu do passado.

Olá, Victor.

Eu li, sem querer, a tua carta de quase um ano atrás. E, pelo que eu posso me recordar, você estava com o coração em frangalhos, ferido, acuado, sentindo exaustão por todos os seus poros, procurando um abrigo. Mas não havia abrigo, Victor. E eu sei disso. 

Hoje, eu penso que você venceu diversos dos fantasmas que lhe assombravam. Mas ainda há muito a percorrer. Desde o teu início você conheceu sentimentos horríveis, Victor. Desde os teus primeiros passos você conheceu o abandono, o desamparo, a solidão. Muito antes da vida se apresentar em diversas faces você já conhecia a dor. E eu lamento tanto por isso, cara!

Eu sei que demorou pra você entender a razão das tuas dores, mas você foi forte o suficiente para as olhar de frente, lutar por si mesmo, avançar pro caminho que sempre quis, o caminho do se sentir seguro. Não era tua culpa, cara. Das vezes todas que as palavras ficavam presas em sua garganta, você não era o culpado. Das vezes que você queria gritar por medo, você também não era o culpado. Nunca foi. O que você sentia, Victor, era o peso de uma vida inteira sendo preterido, desamparado, deixado de lado, buscando conforto sem o achar. Era isso, Victor. 

A dor que você sentia de buscar um apoio, apoio esse que você nunca teve, veio de uma vida inteira de muitas dores, sufocadas em si mesmo, por não ter onde e pra quem gritar. Você acostumou, Victor, a ser sozinho. A sufocar em si mesmo. A se questionar e se machucar da razão de tanto sofrimento e tanta dor, e o motivo para viver tanta tristeza. A tua tristeza tinha nome. Você só queria sentir que existia alguém que você pudesse contar em uma adversidade. Lamento dizer, infelizmente não tinha. 

Eu fico feliz que você já entendia que você tinha direito a ser amado. Como boa notícia, digo que você aprendeu a se orgulhar de si mesmo, devagar, mas aprendeu. E de novo, a contar consigo mesmo, como seu maior trunfo. E você passou pela longa tempestade, Victor. Nadou contra a correnteza, se debateu, se agarrou em alguns objetos que boiavam, mas passou. Como  um guerreiro que você sempre foi. E isso tudo te orgulhará muito, muitíssimo. Te orgulhará demais. 

Agora, Victor, lamento te dizer que você também desacreditará em você mesmo. Você irá dar alguns passos pra trás, irá voltar a um ponto de abandono, se colocará em uma situação de desamparo novamente. Isso tudo é verdade, mas saiba, bem aos pouquinhos você vai encontrando em si mesmo o caminho pra olhar pra dentro e ver flores em você. Ver teu peito cheio de coisas boas e pensar que mesmo com a vida te maltratando tanto, ainda assim, você seguiu em frente e continuou andando, cheio de afeto no peito. 

Você é, Victor, uma pessoa de peito aberto. Você vai descobrindo aos poucos que o ser digno de afeto e de amor é o minimo. Você é de orgulhar a qualquer um que te tenha consigo. Hoje essas palavras vieram depois de muita dor e reflexão. Mas vieram. E tudo bem, Victor. Seguimos.

Eu te amo, Victor. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário