Carta para Victor Hugo, 06 de maio de 2023.
Oi, Victor. Estamos aqui, novamente, pouco menos de três anos após a última vez que escrevi uma carta para mim, como faço agora. Tanta coisa mudou nesse espaço de tempo que nem sei por onde começar, já que existe coisa demais a ser dita, é bem verdade.
Sinto que fiz o impossível. Um menino que mal tinha o que comer, morava em um depósito de bebidas, de favor, recebendo bolsa família pra conseguir pegar ônibus e estudar. Tantas vezes fazendo refeições na escola, nem sempre encontrando comida em casa. Hoje, advogado. Que caminho tortuoso, difícil, doloroso. Hoje penso e sinto a dor que foi chegar até aqui. Até esse momento. Essa travessia. Remei, perdi meus remos, usei as mãos, os galhos de árvores, a correnteza.
Em 2020, ultima vez que escrevi, estava no meio de uma pandemia global, cercado de dor por todos os lados, cansado, triste, perdido. Naquela oportunidade me cerquei de tudo o que eu podia dar, amor. Apenas amor. E segui em frente. Hoje vejo como arrancamos na unha e fizemos possível o que era inacreditável. Na gana de vencer.
Naquela época eu era o único que trabalhava em casa, e não era CLT. Um mero contrato de estágio, um salário mínimo. Tudo era impossível. Lembro que a minha felicidade mensal era sobrar o suficiente no mês pra comprar um lanche, na promoção do ifood. Dez reais. Olhando pro passado, penso o quanto que fui forte, mesmo sabendo que não me permitiria outra opção. Ainda assim, que duro. Que triste. Que sofrido.
Esses dias, voltando pra casa, um colega do trabalho ouviu por alto esse relato e ficou em choque. "Como você aguentou, Victor?". É uma pergunta válida. Eu não sei dizer. Tinha de aguentar. Que outra opção me restava? Tinha de aguentar, somente.
Tantos sonhos. 2020 era o momento. Não veio. Me perdi. A dor do abandono, da promessa de lar desfeita, da promessa de encerramento de ciclo desfeita, tantas mortes! O coração sobressaltado, sem descanso. Quando houve descanso, afinal? Não naquele tempo, ao menos.
Lembro de 2020 com o peso de quem atravessa um temporal, desviando de raios, tentando se manter na estrada. vez ou outra quase cruzando a margem. Por pouco, por muito pouco, não cai nela. Mas chegamos, Victor. Parte dos sonhos de 2020 vieram em 2023. E, se estou aqui, é pra confirmar que você soube esperar. Soube fazer seu caminho. Soube erguer a cabeça e levantar após as inúmeras quebras. Soube ser mato de beira de rio que até enverga, mas não quebra.
Nós conseguimos. E ainda há muito. Mas nós conseguimos.
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