segunda-feira, 28 de agosto de 2023

Alguma outra carta.

 Hoje tem sido um dia de emoções dúbias. Faz uma semana que tem sido, na verdade. Me lembro de ter assistido duas partes de filmes que me marcaram muito, o que se somou a um sentimento de entendimento ou de, ao menos, tranquilidade maior. Ou seria um respiro na inquietação. É para se pensar. 

Terminei a segunda parte do filme Vermelho, Branco e Sangue Azul e assisti a primeira parte de A Pior Pessoa do Mundo. Coisas diferentes me tocaram nesses filmes. 

A primeira coisa que me tocou foi uma parte de  Vermelho, Branco e Sangue Azul , que apesar de ser um filme simples, tem um diálogo muito bonito, quando Alex diz que "Se você permanecer nesta torre você não sentirá nada. Henry, você não sentirá nada".

Talvez por toda uma vida tenha me isolado numa torre, por diversos medos, tal como o personagem. Por vários traumas, dificuldades, dores, receios e medos me encastelei e permaneci incomunicável por boa parte do tempo.

Vez ou outra eu abria a janela mas não deixava ninguém passar. Isso mudou. Não só me permiti amar como dividi minha casa, saí da torre, sonhei, planejei, quis, vivi. Posso não ter sido o mais próximo, o mais presente, o mais amável. Mas vivi. 

Fui amado também. Peguei um avião para ir até Brasília, quis dividir uma vida. Estava disposto e pronto para dividir meus dias. Ainda que não tenha se estendido pelo tempo, vivi. 

A vida foi um pouco dura comigo, mas talvez a aspereza tenha sido uma marca de sempre. É tocar em frente. 

Me sinto triste por entender que meu amor persiste enquanto o relacionamento acabou, mas faz parte do sair da torre. Eu vivi. Amei. Poderia ter vivido toda uma vida amargurado pela dor. Mas não quis isso. Que orgulho.

E não é só. 

Sei que me confundi e acabei por me atropelar nas palavras, vomitando palavras que poderiam ter sido resumidas em "Sinto muito sua falta e tenho saudades de você. Te admiro enquanto pessoa maravilhosa que você é e ainda te amo. Se cuide".

Mas faz parte da vida errar. Não sou a pior pessoa do mundo por estar perdido e não ter todas as respostas. Sou humano. Mas aprendi a maior das lições: é preciso sair da torre pra viver e ser feliz. Eu vivi. Fui feliz. Chorei e sinto dor, mas antes dor que amargura. 

Não sei qual o caminho, mas sigo.

segunda-feira, 26 de junho de 2023

Carta para Kadson

 Kadson, 


Escrevo porque dentro do meu peito não cabe mais. Enquanto escrevo, falo aos pouquinhos, como uma tentativa silenciosa de conseguir sobreviver. De esvaziar aquilo que está transbordando em mim.

Eu te amo.

Eu te amo.

Eu te amo. 

Semana passada, no meu aniversário, eu li a sua dedicatória e senti algo que há meses não estava mais ao meu alcance. Senti o seu afeto. O seu carinho. 

Na mesma hora meus ombros ficaram mais leves. A tensão do trabalho sumiu. O dia ficou tão mais azul que até sorri. Senti de novo aquele afago dentro do peito. 

Tinha algo que estava perdido e que veio até a mim naquele momento, a sua companhia. A noção de que você se importa, de que você quer o meu bem, que o mundo, esse lugar tão duro e cheio de problemas não é tão ruim assim afinal. 

Eu te amo. 

As palavras são poucas. 

Eu te amo. 

Eu te amo. 

Eu te amo.


quinta-feira, 11 de maio de 2023

 Carta para Victor, 11 de maio de 2023.


Olá, Victor. Você deve até saber, mas hoje foi mais um dia daqueles, em uma série de grandes dias daqueles. Eu nem falo da quase impossibilidade de conseguir chegar no horário no trabalho, ou outras coisas que realmente te deixaram um tanto impressionado, como o mesmo ventilador queimar duas vezes e você consertar na cara e no desespero. Nem é isso.

Hoje foi um daqueles dias que percebi o quanto as estruturas podem soterrar, e de como somo pequenos frente ao que se apresenta pra nós. Desde segunda tenho refletido sobre isso, e hoje as coisas tomaram proporções gigantescas. Me senti soterrado, cansado, engolido. E, ao mesmo tempo, orgulhoso por ter sido firme. Por ter sido resistente. Por ter dito não. É preciso dizer não. Passei a vida inteira pra dizer um não e não me sentir culpado por isso. Assim o fiz. Mesmo em meio a uma onda gigantesca. Sei que sou Victor Hugo, hoje. Sei que existo. E isso é muito bom.

Também foi um dia de uma velha lição se fazer presente, a de não deixar pro dia seguinte. As vezes acredito que a vida não é exatamente conivente com paradas pra descanso. Não quando se é pobre.  O dia seguinte sempre vem, e vem tudo de uma vez. Faça sempre as coisas no momento em que tem de ser feitas, Victor. De verdade.

Poderia escrever algumas linhas sobre meus sentimentos hoje. Sigo um pouco carente, e talvez seja porque o gosto de compartilhar a vida seja muito doce, e o que sinto falta. Amar é muito bonito, amar e ser amado é bom demais. Amar e viver e um relacionamento saudável é um afago na alma. Viver tudo isso conta muito, e ficar sem incomoda um tanto. É da vida.

Meu corpo está um tanto cansado, Lucas e Arthur estão doentes, sigo pensando neles e em oração. A carta é menor, por esses motivos. Hoje foi definitivamente uma quinta-feira, Victor. 

Espero em esperança por você. 

quarta-feira, 10 de maio de 2023

Carta para Victor, 10 de maio de 2023. 


Olá, Victor. Que dia, novamente. Talvez um dos motivos de te escrever é que os dias foram tão pesados que as palavras e sentimentos precisavam sair. Não tem jeito, é preciso tirar um pouco para sobreviver. Hoje foi pesado, de verdade. Aqueles pesos mesmo, que as horas se arrastam, o corpo parece um pouco travado, como quem não dá conta da correria dos dias e pede um pouco de calma. Não é errado, se for pensar bem. É preciso de um pouco de humanidade nos dias, nem sempre disponível.

Um sentimento muito forte ao longo desse dia, que se transformou em uma reflexão, tem a ver como as emoções se expressam em mim, como uma pedra em um lago. O epicentro emanando ondas por várias direções. Talvez seja isso, entende?

Sofri uma situação muito ruim no trabalho, que em seguida veio como uma pequena onda e foi se espalhando por todos os lados, silenciosamente. Hoje me veio uma dor antiga de ser só um pé rapado, um zé ninguém. E, eu sei, no fundo eu não tenho nem onde cair morto, como dizem. Ainda que acredite que existam coisas incríveis em mim, o peso da vida toda sofrer com privações, situações difíceis, algumas dolorosas por conta da minha origem doeu muito. 

É preciso afastar um pouco os sentimentos ruins, acreditar na minha persistência e na minha luta contra a pobreza, mas não é fácil. Minha vida tem sido uma luta imensa na tentativa de ter alguma chance mínima que seja de um pouco de conforto, de ser menos pobre. Mas tem sido muito inglório. Me parece que sempre que eu avanço uma casa que seja, as dificuldades dobram. Triplicam talvez. Não sei dizer com certeza, mas também tem um sentimento de tristeza e frustração nas palavras. Muito cansaço. 

Hoje me veio um sentimento guardado sobre o Distrito Federal. Uma conversa que tive com Kadson na qual ele me falou que éramos de origens muito diferentes. E é verdade. Lembro de ter sentido essa frase com muita dor, afinal fui sem dinheiro, triste com o falecimento recente a época de tio Valfredo, e muito envergonhado por não ter como pagar por minha estadia. 

Talvez o dia de hoje tenha feito essa conexão com a tristeza que senti no Distrito Federal, e um pouco de vergonha também. Acho que senti vergonha de Kadson pagando tudo, foi bem triste. Queria poder ajudar, queria não ser tão pobre, queria poder ter uma base que me apoiasse na dificuldade financeira. Mas não tive, não naquele momento específico. Ainda hoje sinto com dor o pensamento de que talvez ser tão pobre foi um problema no relacionamento. E o pensamento de que talvez Kadson se importou com isso é triste, mas há trevas e luz em todos os seres humanos. Até mesmo nos que amamos e admiramos um dia.

Talvez nesses dias eu me senti muito carente. Carente de poder compartilhar essas palavras, em ser ouvido, em importar. Acho que a vida tem sido uma grande batalha pra importar um pouco, afinal. Pra ser alguém, com importância e consideração de que um ser humano merece. Me sentir tratado e considerado dignamente. Sou digno, afinal. 

Eu sou muito pobre hoje em dia. Não tenho como fugir disso. Tem sido assim há quase trinta anos, e tenho batalhado para além das minhas forças pra que isso mude. Não porque eu quero uma vida de posses, mas porque eu quero poder ter um pouco de dignidade e conforto. Poder ser. Quero poder ser. E busco com todas minhas forças poder ser. Sei que um dia eu consigo. Hoje me senti vencido, derrotado. Amanhã talvez sinta tudo isso de novo, mas sigo na batalha. 

Espero em esperança por você, Victor.

terça-feira, 9 de maio de 2023

 Carta para Victor, 09 de maio de 2023.


Olá, Victor. Hoje foi mais um grande dia daqueles, talvez sob a influência do que chamam de mercúrio retrogrado na astrologia. De manhã cedo, ao arrumar as coisas pra sair de casa, descobri que um gato de rua havia urinado na minha mochila e o tempo de limpeza me custou chegar fora do horário, de novo. Infelizmente.

Resolvidas mil coisas na rua, questionamentos acerca da rotina, da jornada, do cansaço, de uma sensação de esgotamento geral e, em uma passada de olho rápida no computador, a notícia da morte de Rita Lee. Que baque! Que tristeza! Que vazio, que luto...

Lembrei do Victor de 18 anos, gritando que era gay em um show da Rita Lee, ao som de Ovelha Negra. Me lembro de me sentir vivo, de uma senhorinha olhando pra mim com um jeito entre a compreensão e a dúvida. Ah, Rita! Naquele dia você enfrentou a polícia militar, foi você em cada segundo. 

Talvez, sempre quis ser um pouco como você. Não sei se consegui ser muito Victor Hugo ao longo da minha vida. Quis muito! Tentei muito. Mas silenciei muito tempo por sobrevivência. Talvez o luto seja isso mesmo, entender que quem a gente quer ser também morte, cumpre seu destino. Mas, me parece, que a lição também seja de abraçar a vida com tudo o que ela vier. Dores, sorrisos, alegrias, amor, perdas. 

Hoje, depois de muito tempo, falei rapidamente com Kadson, coisa rápida, um email de duas linhas lamentando a perda de Rita. Nada de profundo, e que me deixou feliz pela sensação de que, afinal, não somos inimigos. As linhas de respeito e consideração seguiram de pé, o que é muito bom. Lembrei que um tempo atrás, pensando sobre os dias no Distrito Federal, pensei que nunca ouvimos Rita Lee juntos. Engraçado pensar que naquele momento foi algo que me fez refletir sobre a importância de aproveitar os momentos juntos, e do quanto nos perdemos. 

Foram muitos sentimentos ao longo do dia. Frustração, cansaço, impotência, tristeza, luto, saudades. Saudades de ouvir Doce Vampiro e pensar no cheiro da pele, no sorriso. Mas também entendimento do que ficou no passado, nele pertence. Não há muito o que se possa fazer. Talvez a saudade seja um pouco, ou muito, de vontade de receber um abraço em um dia de luto. Sentimentos são complexos. É da vida.

O dia me reservou uma escolha também. Sobre limites, amor próprio, linhas que não se devem atravessar. Talvez mais tarde você lembre do dia que preferiu voltar sozinho em um dia de luto a aceitar uma possibilidade duvidosa de afeto. E da sensação de que o mundo passou rápido demais e o caminho que parecia seguro, outrora, se revelou uma estrada de silêncios e tristezas. A caminhada é a lei maior. Caminhamos.

Hoje lembrei de uma frase que sempre mexeu muito comigo "Ser dos caminhos mas nunca os pertencer". Talvez seja isso mesmo. Entender da transitoriedade das coisas e fazer do caminho, rota de paz. Nunca pertencendo. Sendo.

Ou não. Talvez meu coração tenha gostado de sentir amor a alguém, tal qual Rita a Roberto. Pode ser. Hoje foi mais um dia, Victor. 

segunda-feira, 8 de maio de 2023

 Carta para Victor Hugo, 08 de maio de 2023.


Olá, Victor. Te escrevo para que você lembre desse dia e quem sabe dê uma risada. Ou só lembre que existem dias realmente ruins, e tudo bem. Eles também passam. Não suavemente, é bem verdade. Mas eles passam.

Hoje o dia parecia movido por uma força invisível que testa até onde estamos dispostos a suportar pra continuar e seguir em frente, encarando que a vida requer de nós coragem e sobretudo persistência. 

De início uma calça que rasgou (e que pena, tão nova e bonita!), que rendeu alguns minutos a mais e um precioso ônibus no horário, levando a tranquilidade de chegar cedo e se preparar pra audiência e trazendo uma esbaforida chegada no trabalho. Que jeito, é bem verdade.

O inacreditável veio um pouco depois, com uma recusa de desocupação de espaço que levou a uma gambiarra para conseguir participar de uma audiência - e olha, acredite, foi uma mega gambiarra, constrangedora até. Sensação de desrespeito enquanto profissional, enquanto pessoa. Que jeito. Cabeça levantada, fazer o que se é pago pra fazer.

Mais adiante muitas horas de banco, problema de recebimento de dinheiro, filas, zíper quebrando no meio do calçadão, constrangimento pra ficar no trabalho, cobranças, coisas difíceis de escutar e ter de fingir não se importar. Que jeito. Novato, contas pra pagar, responsabilidade. 

E, após chegar em casa, faltar uma aula importante, ficar na rua, trancado do lado de fora. E talvez um pouco mais de barulho pra dormir. Não sei. 

Tem dias que o mundo é todo hostil. O coração pesa, cansado, exausto de tanta luta. Amanhã tem mais um desses dias. A vida é todo um lutar. Mas dias difíceis se atravessam. Eventualmente sem zíper na calça mesmo, ao menos a cueca era toda preta, igual a calça. Ainda bem!

sábado, 6 de maio de 2023

 Carta para Victor Hugo, 06 de maio de 2023.


Oi, Victor. Estamos aqui, novamente, pouco menos de três anos após a última vez que escrevi uma carta para mim, como faço agora. Tanta coisa mudou nesse espaço de tempo que nem sei por onde começar, já que existe coisa demais a ser dita, é bem verdade. 

Sinto que fiz o impossível. Um menino que mal tinha o que comer, morava em um depósito de bebidas, de favor, recebendo bolsa família pra conseguir pegar ônibus e estudar. Tantas vezes fazendo refeições na escola, nem sempre encontrando comida em casa. Hoje, advogado. Que caminho tortuoso, difícil, doloroso. Hoje penso e sinto a dor que foi chegar até aqui. Até esse momento. Essa travessia. Remei, perdi meus remos, usei as mãos, os galhos de árvores, a correnteza. 

Em 2020, ultima vez que escrevi, estava no meio de uma pandemia global, cercado de dor por todos os lados, cansado, triste, perdido. Naquela oportunidade me cerquei de tudo o que eu podia dar, amor. Apenas amor. E segui em frente. Hoje vejo como arrancamos na unha e fizemos possível o que era inacreditável. Na gana de vencer. 

Naquela época eu era o único que trabalhava em casa, e não era CLT. Um mero contrato de estágio, um salário mínimo.  Tudo era impossível. Lembro que a minha felicidade mensal era sobrar o suficiente no mês pra comprar um lanche, na promoção do ifood. Dez reais. Olhando pro passado, penso o quanto que fui forte, mesmo sabendo que não me permitiria outra opção. Ainda assim, que duro. Que triste. Que sofrido. 

Esses dias, voltando pra casa, um colega do trabalho ouviu por alto esse relato e ficou em choque. "Como você aguentou, Victor?". É uma pergunta válida. Eu não sei dizer. Tinha de aguentar. Que outra opção me restava? Tinha de aguentar, somente. 

Tantos sonhos. 2020 era o momento. Não veio. Me perdi. A dor do abandono, da promessa de lar desfeita, da promessa de encerramento de ciclo desfeita, tantas mortes! O coração sobressaltado, sem descanso. Quando houve descanso, afinal? Não naquele tempo, ao menos. 

Lembro de 2020 com o peso de quem atravessa um temporal, desviando de raios, tentando se manter na estrada. vez ou outra quase cruzando a margem. Por pouco, por muito pouco, não cai nela. Mas chegamos, Victor. Parte dos sonhos de 2020 vieram em 2023. E, se estou aqui, é pra confirmar que você soube esperar. Soube fazer seu caminho. Soube erguer a cabeça e levantar após as inúmeras quebras. Soube ser mato de beira de rio que até enverga, mas não quebra. 

Nós conseguimos. E ainda há muito. Mas nós conseguimos.