quarta-feira, 10 de maio de 2023

Carta para Victor, 10 de maio de 2023. 


Olá, Victor. Que dia, novamente. Talvez um dos motivos de te escrever é que os dias foram tão pesados que as palavras e sentimentos precisavam sair. Não tem jeito, é preciso tirar um pouco para sobreviver. Hoje foi pesado, de verdade. Aqueles pesos mesmo, que as horas se arrastam, o corpo parece um pouco travado, como quem não dá conta da correria dos dias e pede um pouco de calma. Não é errado, se for pensar bem. É preciso de um pouco de humanidade nos dias, nem sempre disponível.

Um sentimento muito forte ao longo desse dia, que se transformou em uma reflexão, tem a ver como as emoções se expressam em mim, como uma pedra em um lago. O epicentro emanando ondas por várias direções. Talvez seja isso, entende?

Sofri uma situação muito ruim no trabalho, que em seguida veio como uma pequena onda e foi se espalhando por todos os lados, silenciosamente. Hoje me veio uma dor antiga de ser só um pé rapado, um zé ninguém. E, eu sei, no fundo eu não tenho nem onde cair morto, como dizem. Ainda que acredite que existam coisas incríveis em mim, o peso da vida toda sofrer com privações, situações difíceis, algumas dolorosas por conta da minha origem doeu muito. 

É preciso afastar um pouco os sentimentos ruins, acreditar na minha persistência e na minha luta contra a pobreza, mas não é fácil. Minha vida tem sido uma luta imensa na tentativa de ter alguma chance mínima que seja de um pouco de conforto, de ser menos pobre. Mas tem sido muito inglório. Me parece que sempre que eu avanço uma casa que seja, as dificuldades dobram. Triplicam talvez. Não sei dizer com certeza, mas também tem um sentimento de tristeza e frustração nas palavras. Muito cansaço. 

Hoje me veio um sentimento guardado sobre o Distrito Federal. Uma conversa que tive com Kadson na qual ele me falou que éramos de origens muito diferentes. E é verdade. Lembro de ter sentido essa frase com muita dor, afinal fui sem dinheiro, triste com o falecimento recente a época de tio Valfredo, e muito envergonhado por não ter como pagar por minha estadia. 

Talvez o dia de hoje tenha feito essa conexão com a tristeza que senti no Distrito Federal, e um pouco de vergonha também. Acho que senti vergonha de Kadson pagando tudo, foi bem triste. Queria poder ajudar, queria não ser tão pobre, queria poder ter uma base que me apoiasse na dificuldade financeira. Mas não tive, não naquele momento específico. Ainda hoje sinto com dor o pensamento de que talvez ser tão pobre foi um problema no relacionamento. E o pensamento de que talvez Kadson se importou com isso é triste, mas há trevas e luz em todos os seres humanos. Até mesmo nos que amamos e admiramos um dia.

Talvez nesses dias eu me senti muito carente. Carente de poder compartilhar essas palavras, em ser ouvido, em importar. Acho que a vida tem sido uma grande batalha pra importar um pouco, afinal. Pra ser alguém, com importância e consideração de que um ser humano merece. Me sentir tratado e considerado dignamente. Sou digno, afinal. 

Eu sou muito pobre hoje em dia. Não tenho como fugir disso. Tem sido assim há quase trinta anos, e tenho batalhado para além das minhas forças pra que isso mude. Não porque eu quero uma vida de posses, mas porque eu quero poder ter um pouco de dignidade e conforto. Poder ser. Quero poder ser. E busco com todas minhas forças poder ser. Sei que um dia eu consigo. Hoje me senti vencido, derrotado. Amanhã talvez sinta tudo isso de novo, mas sigo na batalha. 

Espero em esperança por você, Victor.

Nenhum comentário:

Postar um comentário