terça-feira, 9 de maio de 2023

 Carta para Victor, 09 de maio de 2023.


Olá, Victor. Hoje foi mais um grande dia daqueles, talvez sob a influência do que chamam de mercúrio retrogrado na astrologia. De manhã cedo, ao arrumar as coisas pra sair de casa, descobri que um gato de rua havia urinado na minha mochila e o tempo de limpeza me custou chegar fora do horário, de novo. Infelizmente.

Resolvidas mil coisas na rua, questionamentos acerca da rotina, da jornada, do cansaço, de uma sensação de esgotamento geral e, em uma passada de olho rápida no computador, a notícia da morte de Rita Lee. Que baque! Que tristeza! Que vazio, que luto...

Lembrei do Victor de 18 anos, gritando que era gay em um show da Rita Lee, ao som de Ovelha Negra. Me lembro de me sentir vivo, de uma senhorinha olhando pra mim com um jeito entre a compreensão e a dúvida. Ah, Rita! Naquele dia você enfrentou a polícia militar, foi você em cada segundo. 

Talvez, sempre quis ser um pouco como você. Não sei se consegui ser muito Victor Hugo ao longo da minha vida. Quis muito! Tentei muito. Mas silenciei muito tempo por sobrevivência. Talvez o luto seja isso mesmo, entender que quem a gente quer ser também morte, cumpre seu destino. Mas, me parece, que a lição também seja de abraçar a vida com tudo o que ela vier. Dores, sorrisos, alegrias, amor, perdas. 

Hoje, depois de muito tempo, falei rapidamente com Kadson, coisa rápida, um email de duas linhas lamentando a perda de Rita. Nada de profundo, e que me deixou feliz pela sensação de que, afinal, não somos inimigos. As linhas de respeito e consideração seguiram de pé, o que é muito bom. Lembrei que um tempo atrás, pensando sobre os dias no Distrito Federal, pensei que nunca ouvimos Rita Lee juntos. Engraçado pensar que naquele momento foi algo que me fez refletir sobre a importância de aproveitar os momentos juntos, e do quanto nos perdemos. 

Foram muitos sentimentos ao longo do dia. Frustração, cansaço, impotência, tristeza, luto, saudades. Saudades de ouvir Doce Vampiro e pensar no cheiro da pele, no sorriso. Mas também entendimento do que ficou no passado, nele pertence. Não há muito o que se possa fazer. Talvez a saudade seja um pouco, ou muito, de vontade de receber um abraço em um dia de luto. Sentimentos são complexos. É da vida.

O dia me reservou uma escolha também. Sobre limites, amor próprio, linhas que não se devem atravessar. Talvez mais tarde você lembre do dia que preferiu voltar sozinho em um dia de luto a aceitar uma possibilidade duvidosa de afeto. E da sensação de que o mundo passou rápido demais e o caminho que parecia seguro, outrora, se revelou uma estrada de silêncios e tristezas. A caminhada é a lei maior. Caminhamos.

Hoje lembrei de uma frase que sempre mexeu muito comigo "Ser dos caminhos mas nunca os pertencer". Talvez seja isso mesmo. Entender da transitoriedade das coisas e fazer do caminho, rota de paz. Nunca pertencendo. Sendo.

Ou não. Talvez meu coração tenha gostado de sentir amor a alguém, tal qual Rita a Roberto. Pode ser. Hoje foi mais um dia, Victor. 

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